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Desprezo

Continue a desprezar quem te ama
A mergulhar fundo na superficialidade
Poupando-me da espera, do sentir
Ou preocupado com a culpa que há de vir?

Culpa! Culpa! Quem a tem se te quero?
Se nada além de amor é o que espero
Mas se desprezo é tudo que pode ofertar
Viva a superficialidade do não amar...

Seu, meu modo de amar

Não, não pensei que era só meu
O seu amor
Mas não pensei que não era seu
O tal do amar

Que a ti não mais importava
Ser amado
Que tão longe do amor estava
O coração calado

Não, não pensei que era só meu
O seu ardor
Mas não quero dividir o suor seu
Com outro calor

Não, não pensei em administrar
Tanta sedução
Sequer pensei ser capaz de sonhar
Em meio a ilusão

Mas não pense que eu sou boba
Sem razão
Nem espere que eu te espere a vida toda
Para receber o não

Não, não pense que não sofro só
Ou em vão
Mas também saiba que a cada nó
Dissipa-se a paixão

Estrelas

Até as estrelas no céu me olham inexpressivas
Sem o calor e o som que estão ao longe
Parecem ainda mais distantes e depressivas
Se não as tenho, nem a paciência de um monge

Ah, quanta falta faz a luz que delas emana
Que como um guia costumava me orientar
Livrava-me da minha própria mente insana
Das marcas... A dor e a delícia de te amar

Sei de cor seus medos e a sua fantasia
E quando eu for embora sei que cantará
A canção do Oswaldo Montenegro que a gente ria

E sei que sentado sob as estrelas e a lua fria
Entre tantas recordações, da música lembrará
E quem sabe um dia me encontrará em alegria

Pele


O toque sensual, bem de mansinho, malicioso
Ao corpo traz o aconchego... Ah, afago jocoso
Que dá a alma paz e conflito! Gosto de subversão
Charada arriscada, folia, aposta com a emoção...

Jogo de pele... Que de leve encosta uma na outra
Em posições que parecem ter saído do kama sutra
Mas por debaixo da colcha, apenas o puro instinto

Reações que atravessam a mente e o espírito

Polaridade

De alegria, chora a alma
Transitando na ânsia calma
Com a aorta dilacerada
Mas de alma renovada

Sensibilidade a mil
Transborda de sangue vil
O instinto aflorado
No tumulto gerado


Tumulto de percepções
No duelo de sensações
Que urgem nos astros
Nos planetas e cosmos

Borbulham as aflições
Misturam-se as estações
O frio congela a apatia
O calor aquece a sabedoria

Nada é tudo e tudo é nada

Quando nada é acaso de nada
Os versos, mais pura essência
E a essência de tudo é calada
Os gestos ficam na lembrança

E o nada é tudo que eu tenho
Se o vácuo for de fato o vazio
E o não fazer, algo a ser feito
Uma opção é deitar no macio

Ocupar a mente com algo oco
Mesmo que só o aforismo louco
Como o tempo que me invade

Deixar a mente exposta ao ar
A vida inteira livre para vadiar
Sem a memória que me abate

A noite

A noite quer ser vista, apreciada
Não somente pela jovem beleza
Nem pela formosa lua anunciada
Apenas por sutil e ingênua destreza

A noite há de ser bela, admirada
Não só como arte de rude franqueza
Nem pela chuva fria em rua isolada
Apenas por sua inabalável certeza

A noite hoje será breve, iluminada
Não por estrelas de doce esperteza
Mas pela formosa amante extasiada

A noite hoje será cheia, ostentada
Não por lua de esplendorosa realeza
Mas por amar-te na madrugada