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Seu, meu modo de amar

Não, não pensei que era só meu
O seu amor
Mas não pensei que não era seu
O tal do amar

Que a ti não mais importava
Ser amado
Que tão longe do amor estava
O coração calado

Não, não pensei que era só meu
O seu ardor
Mas não quero dividir o suor seu
Com outro calor

Não, não pensei em administrar
Tanta sedução
Sequer pensei ser capaz de sonhar
Em meio a ilusão

Mas não pense que eu sou boba
Sem razão
Nem espere que eu te espere a vida toda
Para receber o não

Não, não pense que não sofro só
Ou em vão
Mas também saiba que a cada nó
Dissipa-se a paixão

Estrelas

Até as estrelas no céu me olham inexpressivas
Sem o calor e o som que estão ao longe
Parecem ainda mais distantes e depressivas
Se não as tenho, nem a paciência de um monge

Ah, quanta falta faz a luz que delas emana
Que como um guia costumava me orientar
Livrava-me da minha própria mente insana
Das marcas... A dor e a delícia de te amar

Sei de cor seus medos e a sua fantasia
E quando eu for embora sei que cantará
A canção do Oswaldo Montenegro que a gente ria

E sei que sentado sob as estrelas e a lua fria
Entre tantas recordações, da música lembrará
E quem sabe um dia me encontrará em alegria

A noite

A noite quer ser vista, apreciada
Não somente pela jovem beleza
Nem pela formosa lua anunciada
Apenas por sutil e ingênua destreza

A noite há de ser bela, admirada
Não só como arte de rude franqueza
Nem pela chuva fria em rua isolada
Apenas por sua inabalável certeza

A noite hoje será breve, iluminada
Não por estrelas de doce esperteza
Mas pela formosa amante extasiada

A noite hoje será cheia, ostentada
Não por lua de esplendorosa realeza
Mas por amar-te na madrugada

Arte de amar

Até a neurociência
Tratou de explicar
Aquilo que os poetas
Teimam escrever e ousar

Afinal, quem nunca
Pôs-se a rascunhar
Sobre a tal arte de amar

Química, física, biologia
Até a filosofia quer explanar
E em meio a tantos blá blá blás
Ainda me perco na arte de amar

Ama-se por paixão? Intuição?
Ou ama-se simplesmente
Pela beleza da arte de amar...

Máscaras


Olho no olho. Miro seu olhar...tão inexpressivo
Ansiando que o amor, assim, de repente, surja
Desça sobre nós como num passe de mágica
Mas a única coisa que cai é a máscara suja

Imagino que não deveria ser tão contraditório o amor
Nem paradoxalmente tão triste a arte de amar
Quando comparada as máscaras que caem da sua face
Tornando falsas até as lágrimas que teimam rolar

Pois quando o vejo, na minha frente, parado
Não há nada para ver além de marcas do passado
E uma máscara antiga, já de outros carnavais

E então me pego a pensar no seu gesto calado
E em tudo que em vão fora um dia pronunciado
Palavras, palavras...desperdiçadas em sonhos irreais

Queimam

Queimam as roupas sujas, os móveis, as antiguidades presas no casulo das mentes insanas;
Queimam os gritos que o vento tratou de levar. Os ecos chegaram aos ouvidos daquele que não queria escutar;
Queimam as dores, o ódio, as lamúrias, os questionamentos sem respostas;
Queimam as mentiras, os sonhos, os sentimentos que a voz queria propagar;
Queimam faces cobertas de lama, as máscaras e todas as fantasias;
Queimam as poesias, as prosas, os livros encobertos de poeira na estante do pensar;
Queimam as plantações de sangue, os muros da separação, as sujeiras debaixo dos carpetes das casas...
Mas não queimam aquilo que não se vive sem, mas que ninguém sabe explicar: a tal arte de amar!